Texto escrito por meu avô, Annuar, o Alibaba, em 29 de janeiro de 1983, quarenta anos após a morte de sua primeira esposa e dia de seu aniversário. Sempre disse que este era o dia de nascimento, casamento e morte.
Velha Igreja
Estou vendo a Igreja, a mesma que em criança,
o salgado gosto do batismo senti,
quando a vida era só esperança.
Vida feliz que vivi.
Estou vendo a Igreja, a mesma que em moço,
com minha noiva, ali me ajoelhei,
naquele dia de tanto alvoroço,
junto daquela a quem tanto amei.
Estou vendo a Igreja, a mesma em que tristonho,
em prantos, para ali transportei,
a mesma noiva, que agora deponho,
inerta e morta. Oh, como chorei…
Estou vendo a Igreja, a mesma que em sonata,
tantas canções à Maria ouvi,
que tocavam em minha alma abstrata
e me traziam doce frenesi.
Estou vendo a Igreja, agora agonizante,
já sufocada por uma nova Matriz
com minha alma, também já sufocante,
revendo o tempo em que era feliz.
Eu vejo a Igreja em seu dia derradeiro,
vejo minha alma também, já no seu temor,
tudo na vida é breve e passageiro,
só permanece para sempre, o amor.
Roberta Abrahim
Bussamara, formada
Assistente Social pela
PUC- CAMPINAS
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