Dificuldade em manter contato visual pode ser sinal de Transtorno do Espectro Autismo

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) se refere a uma série de condições caracterizadas por dificuldades em habilidades sociais, comportamentos repetitivos, fala e comunicação não-verbal, bem como por déficites de desenvolvimento que variam desde limitações específicas na aprendizagem ou no controle de funções executivas, e acarretam prejuízos no funcionamento pessoal, social, acadêmico ou profissional. “Tais condições tendem a aparecer entre 2 e 3 anos de idade, podendo, em alguns casos, serem identificadas bem cedo. É importante que os pais que percebem alguma dificuldade no desenvolvimento, busquem uma avaliação profissional o quanto antes, pois, uma intervenção precoce pode melhorar muito os resultados”, diz Andrea Valente Melanda Neuropsicopedagoga.
Existem muitos tipos de autismo, causados por diferentes combinações de influências genéticas e ambientais, com uma variação muito grande nos desafios encontrados por cada pessoa. Para isso, usa-se o termo “espectro”, como por exemplo a Síndrome de Asperger e o Transtorno Global do Desenvolvimento.
“Uma pergunta muito frequente que costumo ouvir, é o que causou a condição. Sabe-se que não existe uma única

Andréa Valente Melanda
Neuropsicopedagoga
R. Expedicionários, 1275
Cosmópolis – SP
F.: 3812.3607

causa, pesquisas sugerem que o autismo se deve a diversos fatores, englobando genéticos – em relação ao gênero a proporção é de 4:1 meninas; neurológicos e ambientais”, explica a especialista.
A maioria dos casos ainda é identificada tardiamente, “mas, estudos mostram a importância do diagnóstico precoce ainda na primeira infância”, alerta Andrea. Nesta fase, existem alguns comportamentos que fogem ao chamado “desenvolvimento típico” e podem servir de alerta aos familiares e profissionais da saúde, como:
– dificuldade em manter contato visual enquanto está sendo alimentado;
– ausência de resposta clara ao ser chamado pelo nome, descartando, claro, hipótese de perda auditiva;
– atraso no desenvolvimento da linguagem verbal e não-verbal, como não apontar, não responder a sorrisos, demorar para balbuciar e falar, ou ainda, ter regressão de fala;
– desconforto ao ser pego no colo ou a afagos;
– aversão ou fixação em algumas texturas;
– sentir incômodos a sons e barulhos;
– comportamentos repetitivos e estereotipados como enfileirar brinquedos;
– rodopiar em torno de si, balançar o corpo;
– imitação involuntária dos movimentos de outra pessoa;
– andar constantemente na ponta dos pés;
– sensibilidade ao som;
– tiques.
“A intervenção precoce visa estimular as potencialidades e auxiliar no desenvolvimento de formas adaptativas de comunicação e interação, além do que, por lei, a criança diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista tem direito a um professor-acompanhante em sala de aula”, conclui a especialista.

Depoimento:
“O primeiro sintoma que percebemos foi que ele andou muito rápido, ele começou a falar com 2 anos e já falava o alfabeto e, aos 3 anos, ele parou de falar. Coincidiu com a entrada dele na escola infantil. Achávamos que era algum tipo de trauma na escola e investigamos nesse sentido. Há 18 anos, não se falava sobre autismo e como o convênio da empresa do pai dele oferecia várias terapias, aos 4 anos, ele começou a passar com psicólogo, fonoaudiólogo e etc.. Não sabíamos o que era, mas buscamos as terapias que pudessem trazer uma melhora.
Aos 6 anos, um neuropediatra não disse que era autismo, mas falou que ele tinha uma questão no lóbulo frontal que era responsável pela interação social, comunicação e, por isso, ele não se comunicava. Apenas com 11 anos, veio o diagnóstico de autismo.
Durante todo o processo, a fala foi se desenvolvendo lentamente. Muitas vezes, ele não tinha suas frases e reproduzia frases que ele escutava, mas fora de contexto. Foi assim até depois dos 15 anos, quando teve uma melhora significativa.
A infância foi da família envolvida procurando terapias. A Equoterapia é uma terapia impressionante para o autista, ele se desenvolveu muito na fala depois dela, a relação dele com o cavalo possibilitou um crescimento imenso.
Hoje, com a divulgação do autismo, parece que o olhar está muito mais na criança e se pensa muito pouco no jovem/adulto autista. Temos grandes desafios a questões para ele porque não existem atividades desenvolvidas para um jovem adulto autista que, aos poucos, ele vai adquirindo, mas, ele tem o tempo dele, que é diferente do nosso.
Hoje, nosso desafio é no mercado de trabalho, ele tem seus limites, algumas dificuldades para se manter. As dificuldades da interação social o comprometem no mercado de trabalho. Ele tem habilidades, mas, para o nosso mercado de trabalho, não é reconhecido”, diz Valéria Silva, mãe de Felipe Silva, diagnosticado com Asperger.

Preconceito
“O Felipe estudou em escola particular, uma escola que foi criada especialmente para ser inclusiva. Tinha toda uma proposta da direção para ser inclusiva, mas, infelizmente, ele sofreu muito bullying na escola, tanto por um professor quanto em relação a colegas. As crianças autistas sofrem muito preconceitos pelos colegas que não conseguem entender. Infelizmente, é complicado”.

Família
“O familiar de qualquer criança portadora de necessidade especial se torna umleão. Você tem que, todo dia, estar defendendo. Temos que lutar pelos nossos direitos. Já ficamos esgotados de tantas situações que precisamos nos mobilizar e reivindicar nossos direitos porque o direito não é algo tão simples”, desabafa Valéria.