Maíza Regina Bertazzo sobre o câncer de mama: “Há cura! Pode ser diferente!”

O mês de Outubro se tornou o símbolo da luta em favor da prevenção ao câncer de mama em todo país. O Outubro é Rosa, é o momento em que movimentos das causas da saúde e da mulher destacam a importância de uma descoberta precoce para eficácia do tratamento. Somente quem passou pelo caso pode reafirmar com propriedade a importância da causa. Acompanhe a emocionante história da cosmopolense Maíza:

Maíza Regina Bertazzo, de 45 anos, é Assistente Social há mais de 20 anos. Atua na cidade de Cosmópolis, contudo, trabalhou na Fundação Casa parte deste período. A profissional procurou por uma alternativa mais próxima, quando o filho, Frederico, nasceu. Desde então, trabalha na Casa Dia em prol da recuperação de pessoas.

A suspeita
“Foi através do autoexame que descobri o que chamo de desafio. O autoexame foi fundamental, visto que, se eu não o tivesse realizado, não teria descoberto. Eu sempre fui muito curiosa, se eu estou deitada, já faço. Neste dia, eu fiz, mas, fiz no chuveiro. Foi quando notei dois nódulos, mas, eles não estavam exatamente na mama, eles estavam um pouco acima dela”.

Caso próximo
“Minha irmã estava acometida do problema e eu fiquei ainda mais preocupada. Foi quando procurei meu ginecologista e ele brincou, dizendo que minha mamografia e ultrassom não tinham nem sete meses e que eu poderia voltar depois de seis meses para uma nova bateria de exames.
Assustada com o caso tão próximo, eu fui bem insistente, e ele ainda comentou comigo em tom de brincadeira que seria muito difícil, que minha irmã estava com o câncer de mama, porém, isso não se pega por ‘telepatia’. Ele começou a me avaliar e viu que era algo que deveria ser realmente investigado”.

Exames
“Consegui os exames muito rapidamente, fiz todos eles, porém, na mamografia, houve muito esforço porque ela pega exclusivamente na mama, e como eu disse, os nódulos eram quase no colo. O ultrassom alcançou. Por isso, com os dois juntos, foi possível notar que o médico ficou diferente. Nosso diálogo mudou. Ele passou a me fazer perguntas se eu tinha médico, convênio, e que ele me indicaria caso precisasse de algum, também comentou como funcionava no SUS e que era para eu procurar uma mastologista com certa urgência.
Naquele momento, eu tinha certeza que algo tinha dado errado e, por mais que ele tivesse sido sensível e gentil comigo, ninguém te pediria para procurar um médico se não houvesse nada de errado”.

O desafio
“Foi quando me foi pedida uma biópsia, e esta, para mim, é a parte mais difícil: a espera. Porque, na verdade, o exame exige um período de incubação para acontecer, então não é porque o SUS é demorado ou porque determinado convênio não liberou, é porque existe um prazo para ser feito. E a expectativa, já sabendo que algo poderia estar acontecendo e eu acometida pelo ‘desafio’, foi dolorosa”.

A confirmação
“Quando ficamos sabendo que realmente se tratava do câncer de mama, sinceramente, é como entrar em um buraco: é árduo, sofrido. O Brasil tem uma cultura de que o câncer mata e não de que ele pode ter cura. Fiquei muito desesperada porque minha irmã já estava muito mal, não andava e tinha muita dor. Bateu o desespero porque pensei em mim, pensei no meu filho, no meu marido, nos meus pais, na minha irmã. E a questão emocional é muito presente no tratamento.
Quando descobri o câncer, passei a chamar aquilo de desafio. Aquilo pra mim é muito chocante, não conseguia pensar. Fiquei sem rumo, sem chão”.

Tratamento
“Fiz seis quimioterapias brancas, de agosto a dezembro, num ciclo a cada 21 dias. Nestes 21 dias, eu fiquei muito debilitada, perdi peso, pensei que não sobreviveria. Foi muita luta diária. Não tinha força, não tinha energia alguma. Nunca senti dor, mas, não havia qualquer disposição. Quando eu ia fazer a quimio, eu voltava bem, sorrindo e conversando, mas, após ela, eu precisava tomar uma vacina. Essa vacina me derrubava e, por dez dias após ela, eu não era mais ninguém. Porém, esta condição é muito relativa, visto que há pessoas com tratamentos mais pesados que o meu e parecia que tinham ido ‘tomar sorvete’. Era meu organismo”.

Apoio e superação
“Neste meio tempo, tomei duas bolsas de hemácias porque minhas plaquetas estavam muito baixas e eu muito anêmica. É neste momento que você descobre que: se a família tem alguma importância na sua vida, ali ela tem muito mais! Minha primeira quimio foi no dia 21 de agosto e da minha irmã também. Porém, nove dias após, ela veio a óbito. Um vazio muito grande, dor e sofrimento”.


“Nunca questionei Deus, não sei sobre o propósito. Quando me perguntam o que eu aprendi com isso? Olha, por incrível que pareça, ouvimos de tudo, ouvimos que estamos pagando pecado, ouvimos que é lei do retorno, ‘para quem está com câncer, você está bem!’ (SIC). Principalmente, porque não fui adepta do turbante, nem faixas, eu assumi a careca, usava algumas faixas mais alegres… Então, a própria mulherada olhava para mim e estranhava eu assumir a careca, o que é muito triste. Nunca vou questionar Deus, não deve ter sido porque, mas sim, para que. Quando eu digo que nunca perdi a fé é porque eu tive a certeza de que é feita somente a vontade d’Ele”.

Alicerce
“Meu marido e minha família, amigos, família dele, foram fundamentais para minha recuperação. Eu chegava em casa e o vizinho chegava com caldo, minha sogra com outra comida, tentavam ajudar, iam cuidar de mim com o maior carinho”.

Surpresa
“Quando precisei de sangue… eu não sabia que quando se toma uma bolsa precisa repor duas. Foi quando fiquei preocupada e mandei algumas mensagens pedindo para conhecidos ajudarem nesta reposição. Neste momento, foi quando chorei demais ao sentir o amor de muita gente. A equipe do Santander em peso foi realizar doação de sangue, pessoal do Itaú, pessoas que nunca vi na minha vida, uma moça de Piracicaba foi, uma família da igreja Universal, pessoas que ligavam para avisar que já tinham ido e eu nem imaginava. Hoje, em minhas orações, eu peço e louvo por essas pessoas porque talvez eu nem chegue a conhecer, mas, eu tenho muita gratidão e emoção. Consegui 50 pessoas e, na segunda vez, me ligaram porque eu nem precisaria mandar ninguém como dívida, porque as pessoas passaram a ir regularmente realizar as doações de sangue”.

Gratidão
“Quando vejo o sol, a chuva, se trata de uma gratidão muito maior. Não tenho hoje um diagnóstico de cura, eu tenho um diagnóstico de que o tratamento que me foi feito funcionou. Não foi fácil, mas, eu venci! Depois desse desafio, nenhum dia é igual ao outro, a vida é curta, chovendo ou não, não deixo de fazer mais nada, nunca se sabe se temos o amanhã para viver.
Eu tive uma segunda chance e posso dizer: Há cura, pode ser diferente!”

Mensagem
“Hoje, a maior prevenção é a divulgação da prevenção! Prevenção é tudo; quando se descobre a tempo, 95% dos casos resultam em eficácia no tratamento”.