Um dos últimos profissionais da era analógica, pioneiro nos registros familiares e guardião da memória visual da cidade
Aos 82 anos, Bruno Petch carrega uma vida inteira dedicada à fotografia. Essa relação teve início na adolescência, quando presenciou, pela primeira vez, o processo de revelação realizado por um fotógrafo itinerante que visitava sua família. A imagem surgindo no papel o impressionou profundamente e o motivou a reunir recursos para comprar a primeira câmera. Em época marcada pela escassez de materiais e pela ausência de orientações técnicas, tornou-se autodidata, criando métodos, definindo ângulos e aperfeiçoando preparos que moldariam seu olhar ao longo das décadas.
Nascido em sítio localizado na divisa rural entre Artur Nogueira e Cosmópolis, no bairro da Ponte Funda, cresceu entre as duas localidades até mudar-se com a família para o recém-formado bairro Vila Nova, em 1951. Desde então vive em Cosmópolis, onde construiu sua trajetória pessoal e profissional, sempre reconhecido pelo vínculo profundo com a cidade. Esse reconhecimento foi oficializado em 26/11/2010, quando recebeu da Câmara Municipal o título de Cidadão Cosmopolense, homenagem concedida aos que dedicam parte significativa de suas vidas ao município. Para Bruno, esse gesto reforçou algo que sempre carregou, o orgulho de ser cosmopolense de coração.
Quase cinquenta anos de atuação consolidaram sua importância para Cosmópolis. É reconhecido como o fotógrafo em atividade há mais tempo na cidade. Nesse percurso registrou 1800 casamentos, número referente somente às cerimônias formais. O último foi fotografado em 2005, quando encerrou os serviços externos. Aniversários, batizados, formaturas, retratos de família, campanhas comerciais e registros diversos são impossíveis de contabilizar, resultado de agenda intensa e muito requisitada.
Nos anos 1960 e 1970 Cosmópolis ainda era marcada pelos antigos retratistas de estúdio, profissionais dos primórdios da Villa que trabalhavam com poses formais e fundos pintados. Fotografias externas não faziam parte dos costumes locais. Bruno tornou-se um dos pioneiros desse novo segmento, levando a fotografia para a rotina das famílias. Com profissionalismo evidente em cada registro, ampliou possibilidades, facilitou pagamentos e praticou valores acessíveis, permitindo que moradores de diferentes realidades sociais preservassem suas memórias em álbuns.

O estúdio foi inaugurado oficialmente em 1976, no bairro Vila Nova, período de intensa transformação urbana. A implantação da Refinaria da Petrobras em Paulínia atraiu milhares de trabalhadores vindos de vários estados, transformando Cosmópolis em cidade dormitório do novo polo industrial. Filas de operários se formavam diante do Estúdio Petch em busca de fotografias para documentos profissionais. Milhares de imagens ganharam forma no Estúdio Petch, registrando uma etapa marcante da história cosmopolense.
Suas lentes também guardaram cenários que desapareceram. Ruas de terra, flamboyants da Matriz Santa Gertrudes, a antiga Vila Operária Kalil, a Praça da Paineira, o início da Vila Nova, templos, associações e clubes aparecem em registros que hoje formam mosaico da memória cosmopolense exposto nas paredes do estúdio, verdadeira galeria do tempo aberta ao público.
Durante dezesseis anos registrou atividades oficiais do poder público, acompanhando obras, inaugurações, posse de prefeitos, diplomação de vereadores e visitas institucionais de várias gestões. Na delegacia local realizou documentação técnica de ocorrências diversas, desde atendimentos rotineiros até situações delicadas, fatalidades, tragédias e fotografias de presos, trabalho conduzido com rigor e responsabilidade.
A tradição dos retratistas marcou seu estilo. Nos primeiros anos contou com apoio essencial do saudoso Vavá Fotógrafo. Em período no qual muitos profissionais da cidade evitavam transmitir técnicas por receio de perder clientela, Bruno seguiu direção contrária, ensinando e inspirando novas gerações.
Mesmo com a modernidade e o abandono gradual da tradição de revelar fotos, permanece fiel ao ofício. Hoje dedica-se às fotografias para documentos e às impressões digitais realizadas na hora. O estúdio, extensão natural de sua casa, guarda o ritmo silencioso das manhãs e tardes de trabalho contínuo.
Outra expressão de sensibilidade acompanha toda a trajetória. O violino, aprendido na infância durante cultos luteranos do antigo Núcleo Colonial Campos Salles, tornou-se parte essencial de sua vida. Em serviços de capelania luterana, leva música aos pacientes da Santa Casa de Misericórdia de Cosmópolis, gesto que traduz serenidade e cuidado.
Guardião de imagens que atravessam décadas, Bruno Petch não registrou apenas a história de Cosmópolis. Registrou vidas, retratou afetos e deu forma ao tempo.









