Após mais de um século de posse privada, o prefeito explica como o Paredão passou para o patrimônio público e o que falta para a reconstrução
Mas e o Paredão?
Nas redes sociais e nas conversas do dia a dia, em rodas de amigos ou em encontros rápidos pela cidade, sempre surge o bordão carregado de preocupação e dúvidas: “Mas e o Paredão?”. A pergunta aparece sem aviso, atravessa assuntos e mostra o quanto o tema ainda inquieta o cosmopolense desde o rompimento.
Em busca dessa resposta, para esclarecer a pergunta que virou rotina na cidade, entrevistamos o prefeito de Cosmópolis, Junior Felisbino. Logo no início da conversa, retomamos a principal inquietação da população. E a resposta começou com um ponto que ainda causa surpresa para muitos moradores. O Paredão nunca pertenceu para a Prefeitura. Durante mais de um século, a barragem e toda a área da represa ficaram nas mãos de uma única família, proprietária da Usina Ester. Somente agora, em 2025, depois de um processo jurídico extenso e de grande volume documental, a administração municipal concluiu a compra e oficializou a escritura da área em nome do patrimônio público.
Nesse ponto, Junior faz questão de reforçar uma verdade pouco conhecida pela população. “Todo político sabe que o Paredão nunca pertenceu para a Prefeitura. O que nem todo cosmopolense sabe é essa verdade. E muitos usam esse desconhecimento para fazer política em cima do problema.”
Em seguida, o prefeito resume o simbolismo dessa conquista. “Antes o Paredão era de uma família. Agora, depois de mais de 120 anos, pertence para todas as famílias de Cosmópolis. Agora o Paredão é dos cosmopolenses.” A frase acompanha outra reflexão que reforça a transformação histórica do local. “Depois de mais de um século, o Paredão deixou de ter dono e passou a ter um povo.”
A área adquirida tem 132 hectares, uma dimensão que impressiona quando comparada a espaços conhecidos da cidade. Para o leitor visualizar, isso representa cerca de oito vezes o tamanho do Estádio Thelmo de Almeida, que ocupa aproximadamente 16,4 hectares, e é cerca de cinquenta vezes maior que o terreno da antiga Tecelagem Urca, vendido para o Arena Atacado, que possui cerca de 2,5 hectares. É um território extenso, capaz de englobar áreas urbanas inteiras de cidades vizinhas.
O rompimento parcial da estrutura ocorreu em 9 de março de 2023. O volume de água destruiu parte da barragem e provocou a perda de mais de 7 bilhões de litros do principal reservatório de abastecimento. Para evitar desabastecimento, a Prefeitura montou um comitê de crise e abriu nova captação de água no Rio Jaguari, conectada por tubulação até a ETA, a Estação de Tratamento de Água localizada nas margens da represa. Essa ação sustentou o consumo da cidade enquanto o processo legal seguia o trâmite necessário.
Junior explicou que, até a conclusão da compra, a administração não poderia realizar obras no Paredão, já que a legislação impede qualquer investimento público em área particular. A mesma limitação vale para a ETA do Pirapitingui, que continua com posse precária enquanto aguarda regularização definitiva.
Entre os pontos mais delicados da história recente está a intervenção realizada nos anos 2000, única participação direta da Prefeitura em uma obra de ampliação. Relatórios técnicos apontaram erros que contribuíram para o rompimento. Nos destroços ainda visíveis é possível identificar o uso de materiais inadequados para uma barragem que segura bilhões de litros de água, incluindo tijolos baianos, algo incompatível com a engenharia necessária. Junior prefere olhar para frente, mas reconhece que decisões de outras gestões, principalmente a ampliação feita nos anos 2000, estão entre as responsáveis pelo rompimento.
Com a escritura agora em nome da cidade, o processo avançou para etapas técnicas. A administração reuniu engenheiros, especialistas e geólogos para elaborar estudos que permitiram abrir uma licitação com participação de empresas de todo o Brasil. O contrato já está assinado com a empresa vencedora e falta apenas a ordem de serviço da Defesa Civil Federal para o início da reconstrução. O novo Paredão seguirá fiel ao formato original, com reforços modernos e alvenaria de pedra, sistema tradicional e resistente usado nesse tipo de estrutura, garantindo segurança adequada e sem improvisos.
Junior fala do lugar com emoção e memória afetiva. Ele cresceu frequentando a represa, pescou com a família, nadou nas águas do Pirapitingui e fez o famoso pulo da casinha. São lembranças que ele compartilha com grande parte da cidade. O prefeito resume esse sentimento com uma mensagem simples e verdadeira. “Quem cresceu em Cosmópolis guarda a represa no peito antes mesmo de guardar no álbum de fotos.”
No encerramento da entrevista, a pergunta que circula pela cidade recebeu uma resposta mais completa. “O Paredão vai sair”, afirmou Junior. Ele explica que a obra depende do aval do Governo Federal e do Governo do Estado, já que a Prefeitura não tem condições financeiras de reconstruir sozinha uma barragem desse porte. O prefeito destaca que o maior obstáculo desde o rompimento foi a burocracia, com uma sequência de autorizações, análises e documentos exigidos por outras esferas. Segundo ele, todos os setores da Prefeitura trabalham diariamente para agilizar cada etapa, com viagens constantes a Brasília e atualizações sobre o processo. Agora, com tudo regularizado e com apoio confirmado, Junior diz que a reconstrução está mais próxima do que nunca.
“Agora o Paredão pertence para o povo cosmopolense, e vamos reconstruir nossa história”, afirma Junior Felisbino, prefeito de Cosmópolis.








