Sábado, 18 de julho de 2026

O sabor que permanece: a história da padaria mais antiga de Cosmópolis

A história da família Rampazzo reúne décadas de trabalho e receitas preservadas, presentes na rotina de Cosmópolis

A Padaria e Confeitaria Cosmopolita integra um capítulo único da história de Cosmópolis, marcado pela preservação das nossas raízes, especialmente gastronômicas. É a padaria mais antiga em atividade contínua na cidade, conduzida pela mesma família desde o dia em que abriu as portas.

Essa continuidade fortalece o significado do nome que carrega. “Cosmopolita” não representa apenas o popular bairro que cresceu ao redor do estabelecimento, mas simboliza pertencimento e identidade para inúmeras famílias que atravessaram décadas consumindo produtos com a mesma qualidade e sabor.

Parte da história de Cosmópolis também se reconhece nesses sabores que atravessam gerações. O que começou como forno aceso para poucos se transformou em referência afetiva para gerações inteiras.

O nome também se aproxima da formação da cidade, reunindo a ideia de cosmo às raízes italianas presentes desde a antiga Villa Cosmópolis. A padaria permanece como um dos raros empreendimentos genuinamente cosmopolenses em essência e prática, com produção artesanal diária, gerência familiar e receitas exclusivas que fazem parte da vida cultural da cidade. Cada receita preservada nesse endereço guarda lembranças que muitos moradores trazem da infância.

 

Raízes, forno e memórias

 

O estabelecimento mantém preparos transmitidos por gerações, preservando técnicas herdadas do período em que a Villa surgia ao redor da ferrovia e do movimento do setor canavieiro que moldou os primeiros capítulos da história urbana.

Enquanto muitas padarias adotaram insumos industrializados, a família Rampazzo mantém o modo artesanal que caracteriza a sua panificação.

O pão tradicional, conhecido como francês, já recebeu diferentes nomes ao longo das décadas. Nas primeiras gerações, era chamado de pão de água, pão de sal ou pão de quilo, vendidos no peso ou em dúzias, conhecidos como pão miúdo nos bairros. Mesmo com essas variações, a essência permanece a mesma dos primórdios da panificação da cidade, sem misturas prontas ou massas industriais.

Os pães seguem fermentação natural iniciada na madrugada, com massas batidas e modeladas à mão, repetindo gestos dos primeiros padeiros da Villa. As fornadas saem do forno a lenha e espalham aroma que marca o início do dia para muitas famílias. É um cheiro reconhecido por quem cresceu em Cosmópolis, ligado ao costume de buscar o pão quente antes do trabalho ou da escola.

Há quem diga que o amanhecer tem outro sabor quando começa com o pão da Cosmopolita, saindo de bairros distantes somente pelo modo do preparo.

 

“É pão que não desfarela, não fica molão ou muito duro no outro dia, é outra coisa o sabor e a textura”, disse uma cliente enquanto buscava seus pães para o café da tarde, durante a entrevista com Dona Cida Rampazzo.

As fornadas obedecem técnicas precisas, resultado de décadas de dedicação dos padeiros. Madeiras selecionadas e tratadas garantem brasas de qualidade, sem interferir no aroma das massas. Cada preparo exige temperatura exata, acompanhada pelo olhar atento do assador, função exercida hoje pela nova geração da família, seguindo preceitos transmitidos pelos pioneiros.

O estalar da lenha marca o ritmo das manhãs, como um relógio antigo da cidade. Essas técnicas sustentam a alma da padaria, guardada em cada fornada que ganha as ruas.

 

Sabores que atravessam gerações

A estrutura segue tradicional, com vitrines amplas exibindo confeitados, bolachas, biscoitos, roscas e salgados. As bandeijas de balcão apresentam quitutes adocicados e salgados que fazem parte da memória afetiva de muitas famílias.

As receitas familiares atravessam mais de cinquenta anos e representam parte essencial da cultura gastronômica cosmopolense, sempre preservadas com fidelidade aos preparos originais. Os cafés da tarde na casa dos avós nos anos 1970, os lanches dos recreios escolares nos anos 1980, o café pingado com bauru cosmopolense nos anos 1990 e os bolos e doces de aniversários, casamentos e festas ainda guardam o mesmo sabor. Essa permanência está entre os principais atrativos da padaria.

 

Cada doce carrega um capítulo da cidade, guardado no sabor que não mudou com o tempo, atraindo gerações aos balcões. O pai que levou o filho, hoje avô e bisavô, leva os netos para repetir a tradição.

 

Entre as iguarias estão as bolachas de mel em formato de cavalinho, consideradas um dos produtos mais antigos da cidade, seguidas pela bolacha parafuso, mantecal com goiabada, bola de rum, sonhos com creme e doce de leite, pudim de pão, carolinas, cuffi amanteigado, broinhas de milho, pão caseiro e cuscuz paulista.

A linha tradicional inclui quitutes ao estilo caipira, heranças das antigas colônias e bairros rurais: bolos de mandioca, milho cremoso, fubá, pães de milho, mandioquinha e torresmo. Também fazem parte desse repertório as tortinhas de limão, morango e chocolate e as roscas trançadas de creme e coco queimado. Nos salgados, completam o cardápio empadas artesanais, salsicha especial e o “bauru cosmopolense”, feito com massa folhada, presunto, queijo e tomates.

Para muitas famílias, essas receitas falam sobre Cosmópolis com mais força do que qualquer fotografia.

 

Aprendizado que moldou gerações

A história dos Rampazzo na panificação começou em 1960, quando a família ainda era formada por agricultores. Nelson Rampazzo e o filho Donizeti iniciaram os trabalhos na Padaria Santo Antônio, na Avenida Ester, reconhecida como uma das maiores referências do ramo no interior paulista, propriedade do conhecido Otacilio Padeiro.

A Santo Antônio possuía pequena vila de funcionários nos fundos da Rua Dr. Campos Salles, onde Donizeti, ainda com dez anos, aprendeu o ofício. Participou da produção, das entregas de charrete para colônias, bairros e comércios e trabalhou em outras unidades inauguradas por Otacilio, entre elas a da Rua Sete de Setembro.

Em 1972, no nascente bairro Vila Nova, núcleo habitacional popular, Nelson e Donizeti abriram seu primeiro ponto: uma pequena revenda de pães e confeitados na esquina das ruas 25 de Dezembro e Ruy Barbosa, ao lado da casa da família. Foi entre ruas de terra e novas famílias chegando que nasceu o que se tornaria símbolo de tradição.

O primeiro forno próprio entrou em funcionamento em 1974, iniciando a produção artesanal comandada por Donizeti e Cida, marco que definiu o perfil da padaria.

 

A força de uma família

Cresceram entre balcões e fornadas as novas gerações dos Rampazzo, usando avental e chapeuzinho de padeiro desde cedo. Os filhos de Donizeti e Cida, Valderez, Juliana, Micheli e Willian, aprenderam ainda crianças os gestos que definiriam o futuro da padaria.

Desde os primeiros anos, as meninas já se destacavam no cuidado com a organização, no atendimento e no domínio das receitas familiares, tornando-se alicerces de um trabalho que avançaria pelas décadas. Foram elas que, ao lado da mãe, deram continuidade ao ambiente criado por Donizeti, garantindo que cada preparo carregasse dedicação e identidade cosmopolense.

Na primeira padaria, também atuavam os irmãos Beto e Laércio Rampazzo, o patriarca Nelson e a matriarca dona Dirce, acompanhados das tias Maria e Terezinha. A padaria se transformou em escola para muitos jovens que buscavam a primeira oportunidade, recebendo de Donizeti o carinho e a paciência em ensinar o ofício.

Vários desses aprendizes se tornaram proprietários de padarias importantes da cidade e da região, levando consigo técnicas e valores aprendidos com a família.

 

Um sonho e um recomeço

Em 1993, a família inaugurou nova unidade na Rua Monte Castelo, região que concentrava grande parte da população de Cosmópolis. Sem outras padarias próximas, tornou-se ponto essencial para o cotidiano dos bairros Cosmo, Cosmopolitano, Jardim Margarida e Parque Ester, entre outros.

O nome Cosmopolita passou a ser usado como homenagem espontânea da vizinhança, nascendo uma marca que segue há mais de trinta anos. O prédio próprio, inaugurado em 2001, representou o auge do sonho de Donizeti, fruto de décadas de luta e esforço coletivo.

Contudo, menos de um ano depois, Cosmópolis recebeu a notícia de sua morte após um infarto. A despedida reuniu centenas de clientes e amigos na residência da família, onde foi velado, refletindo respeito e afeto acumulados ao longo de sua vida.

 

A cidade se despediu de Donizeti como quem se despede de alguém que sempre fez parte das manhãs cosmopolenses. Uma multidão de carros acompanhou o padeiro até o Cemitério da Saudade.

Com sua partida, as mulheres da família assumiram o comando da padaria. Cida e as filhas Valderez, Juliana e Micheli conduziram a nova fase, trazendo sensibilidade ao preparo das receitas e ao atendimento, cuidado que lembra o carinho dedicado aos próprios filhos. A nova geração acompanha cada etapa, alguns já adolescentes, outros ainda crianças, seguindo as mães e a avó na paixão pela panificação.

A atuação da família se completa com os esposos e filhos, assim como o irmão Willian, presentes em diversas funções da produção. Jorge, esposo de Valderez, responde pelo preparo das massas e pela condução dos fornos, trabalho acompanhado pelos filhos e sobrinhos que seguem aprendendo o ofício.

 

 

Tradição que desafia a modernidade

Em tempos de franquias padronizadas e comodidades químicas de massas industriais, a Padaria Cosmopolita segue em sentido contrário. Valoriza técnicas artesanais, ingredientes naturais e sabores que refletem a história da cidade. O gosto único das receitas se soma ao atendimento pelo nome do cliente, às conversas que recordam capítulos do passado e ao quadro que simboliza as raízes da família.

A padaria reúne a terceira e quarta gerações da família Rampazzo e tem como marca registrada a força dos comandos femininos. Enquanto algumas integrantes da família se dedicam aos setores administrativos e comerciais, outras atuam diretamente na produção.

Micheli, a caçula, é um exemplo desse envolvimento. Ela aperfeiçoou diversas receitas da padaria, resgatando sabores e preparos do passado com rigor técnico adquirido em cursos de formação profissional. Seu trabalho uniu memória e técnica, garantindo que cada produto mantivesse a identidade que acompanha a padaria desde os primeiros anos.

A produção atende o público diário e também abastece outros estabelecimentos, mantendo o cuidado característico do trabalho familiar. O atendimento segue de segunda a segunda, sempre com pão quente em vários horários.

A cada amanhecer, a Cosmopolita renova esse encontro entre memória e sabor, gesto que define parte da identidade da cidade. Entre aromas, receitas e gestos transmitidos por décadas,  a padaria é um patrimônio cultural presente na memória de quem reconhece, nos sabores, a própria identidade de Cosmópolis.