Vidas Trans importam!

Revolucionar o sistema que mata e ignora a existência de tanta gente é, acima de tudo, uma questão de políticas públicas

Janeiro e seu vigésimo nono dia são, respectivamente, mês e dia da Visibilidade Trans no Brasil. Vem a partir de um marco histórico acontecido na mesma data em 2004: o lançamento da campanha “Travesti e Respeito” – campanha que lutava contra a transfobia e pelos direitos desta parcela da população. Janeiro Lilás (como também é chamado) é uma iniciativa social de buscar mais conhecimento, acolhimento, reconhecimento e sensibilização para a causa.
Você sabia dessas informações? Está com dificuldade de entender o termo trans? Calma. Vale o reforço de alguns temas trazidos em colunas anteriores antes de continuarmos, pois é uma questão urgente para toda a sociedade:

1º: Pessoas TRANS e TRAVESTIS são aquelas que, ao contrário de quem se reconhece com o gênero de nascença, não se reconhecem com o seu sexo biológico: são homens trans, mulheres trans e travestis, sendo essa última, uma identidade latina – e todas elas podem se entender como mulheres trans ou não. Importante lembrar que travesti é uma identidade feminina, por isso as tratamos como AS travestis: sempre no feminino. E ser trans ou travesti não tem relação alguma com qualquer tipo de cirurgia. Essa associação é comumente feita, mas é totalmente equivocada. Se você se reconhece com seu gênero de nascença, você é cis. Eu sou cis, mesmo sendo gay. Gênero e sexualidade são coisas diferentes.
2º: Atualmente no Brasil, em 38% das empresas, há restrições referentes à contratação de pessoas LGBTQIAPN+, sendo as pessoas trans e as travestis as mais prejudicadas, com um percentual de cerca de 90% delas voltando-se à prostituição como única forma de sobrevivência financeira e fonte de renda (é importante também ressaltar que a expectativa de vida delas, em nosso país, é de 35 anos e que esse número pode ser ainda menor, visto a forma invisibilizada e marginalizada como o Brasil as trata).

Agora que relembramos, pergunto: quanto do tema TRANSEXUALIDADE é trazido para o cotidiano de pessoas cis por pessoas cis? Se você é, por exemplo (vale salientar a infinidade de exemplos possíveis aqui), uma mulher cis hétero e seu ciclo social envolve apenas pessoas cis, mesmo que de diferentes sexualidades, como seu esposo, sua mãe ou aquele seu amigo gay de infância, e você não sabia dessas informações, vou reforçar a pergunta acima, mas dessa vez com a resposta em sequência: quanto do tema TRANSEXUALIDADE é trazido para o cotidiano de pessoas cis por pessoas cis? NÃO O SUFICIENTE. NEM PERTO DISSO. Janeiro Lilás é todo mês. Dia 29 de janeiro é todo dia.
Revolucionar o sistema que mata e ignora a existência de tanta gente é, acima de tudo, uma questão de políticas públicas que precisa de muito mais atenção urgentemente, mas também é necessário ser encarado como um enfrentamento cotidiano do povo por si: buscar conhecimento, difundi-lo e lutar por uma sociedade mais justa sempre.
Nossos semelhantes estão morrendo jovens demais e vivendo às margens e sem acesso ao básico (que vai desde afeto até moradia, educação, alimentação, saúde etc.). Como ficarmos estáticos diante deste cenário tenebroso? Fica aqui, então, um apelo meu, um homem cis como qualquer outro, para os leitores cis de qualquer sexualidade que passem por esta coluna: o que você vai fazer para mudar essa realidade? MOVIMENTE-SE! Não fazemos o suficiente. Nem perto disso. Essa realidade não é só de um ou outro – ela é de todos nós. VIDAS TRANS IMPORTAM!

Livro: “Trans: Histórias reais que ajudam a entender a vida das pessoas transexuais desde a infância” – Renata Ceribelli e Bruno Della Latta
Documentários: “Laerte-se” (Netflix) e “Transversais” (Netflix).
Filme: “Paris Is Burning” (Youtube).

Juh Brilliant
Escritor, pedagogo e fotógrafo
@juh_brilliant