Sexta-feira, 17 de julho de 2026

Consciência Negra em Cosmópolis: raízes, presença e reconstrução da memória

Jovem pesquisadora fortalece debates sobre ancestralidade africana, visibilidade histórica e participação negra na vida cultural da cidade

Os registros históricos de Cosmópolis quase não mencionam personagens afro-brasileiros, mesmo que pessoas escravizadas, alforriadas e libertas estivessem entre os primeiros habitantes do nosso território. Elas trabalharam a terra, ergueram vínculos comunitários e resistiram a perseguições e violência, deixando bases que antecederam a chegada dos imigrantes. Essa presença inicial formou parte essencial da história local, porém permaneceu invisível nas publicações oficiais sobre Cosmópolis.

Na semana do feriado da Consciência Negra, marcado na quinta-feira (20), nossa edição destaca a trajetória de Ana Beatriz Pereira, jovem mulher preta que se dedica ao resgate das raízes africanas e das ascendências presentes em Cosmópolis, onde sua família figura entre as mais antigas da cidade, ligada a processos históricos que remontam ao período escravagista na região de Campinas. Ana carrega a influência decisiva da mãe, a saudosa professora Mariza da Silva, referência em projetos educacionais voltados ao tema.

Sua atuação reúne produção cultural, audiovisual, comunicação digital e educação, sempre conectada a narrativas identitárias e comunitárias. Para ela, os termos preto e negro funcionam como afirmação coletiva e política, vinculados a uma herança construída pela resistência do povo afro-brasileiro.

Ana relata que ser negra em Cosmópolis significa conviver com marcas estruturais do racismo. A cidade se desenvolveu durante o projeto de branqueamento do pós-abolição, que apagou a contribuição de populações negras e indígenas. Essa lógica se reflete no território, no acesso a oportunidades e na forma como a memória oficial foi construída, afastando referências e lideranças pretas dos relatos públicos.

A data de 20 de novembro, que homenageia Zumbi dos Palmares, representa reflexão sobre essa história e sobre o papel da ancestralidade africana na formação do país. Ana acredita que a data ainda precisa ganhar sentido real na cidade, com debate, escuta e políticas culturais que recuperem o que foi silenciado.

É nesse entendimento que surge o Afro Festival Cosmópolis, organizado pelo Coletivo Preto Nó. O evento ocupou o feriado e a semana com arte, educação e protagonismo, fortalecendo identidade, economia criativa e combate ao racismo. O festival também funciona como política cultural permanente, ampliando espaços de voz e representatividade.

Em mensagem aos jovens negros, Ana reforça que estudo, curiosidade e autoestima são ferramentas de liberdade. Ela incentiva que cada pessoa busque sua história e caminhe com orgulho, contribuindo para um futuro em que dignidade e reconhecimento sejam vividos com naturalidade.